O resultado das eleições de 2026 também merece ser lido à luz das pautas que cada parlamentar escolheu defender ao longo do mandato. No caso de Pedro Paulo (PSD-RJ), essa leitura passa, inevitavelmente, pela Reforma Administrativa.
O deputado assumiu um papel central na construção da proposta na Câmara dos Deputados. Foi escolhido pelo presidente da Casa, Hugo Motta, para coordenar o grupo de trabalho criado para discutir o tema e, a partir daí, passou a ser uma das principais vozes em defesa da reforma. Participou da formulação do texto, articulou apoio entre as bancadas e colocou seu nome diretamente associado à proposta.
Agora, depois de assumir esse protagonismo, Pedro Paulo não conseguiu se eleger para o Senado pelo Rio de Janeiro. Terminou a disputa com 11,95% dos votos válidos, atrás dos dois candidatos eleitos e também da terceira colocada.
Para a Pública – Central do Servidor, esse resultado não deve ser tratado como um fato isolado da trajetória política construída pelo deputado nos últimos anos. Evidentemente, uma eleição é resultado de muitos fatores. Mas também é verdade que ninguém chega às urnas deixando para trás as posições que adotou durante o mandato.
E a Reforma Administrativa nunca foi uma pauta de pequeno alcance.
Desde o início, a Pública tem chamado atenção para o fato de que mudanças nas carreiras, nos vínculos e na organização do serviço público não atingem apenas quem trabalha no Estado. A própria PEC alcança União, estados e municípios e trata de temas como carreiras, gestão por resultados, estabilidade, concursos, remuneração e contratação no serviço público.
Quando um órgão perde capacidade técnica, quando faltam servidores ou quando uma carreira deixa de ser atrativa, isso aparece na qualidade do serviço prestado à população. É o cidadão que enfrenta a equipe reduzida, o atendimento que demora, a falta de profissionais ou a perda de servidores experientes que conhecem o funcionamento daquele serviço e fazem a máquina pública funcionar.
É quem precisa do SUS, da escola pública, da segurança, da Previdência, da assistência social, da fiscalização e de tantos outros serviços prestados diariamente pelo Estado que acaba convivendo com as consequências dessas escolhas.
Por isso, a Reforma Administrativa nunca foi uma discussão que interessasse apenas ao funcionalismo. O que está em jogo é a capacidade do Estado de continuar entregando serviços públicos com qualidade e de manter profissionais preparados para atender a população.
Pedro Paulo decidiu assumir a defesa dessa agenda e se tornou seu principal articulador político. Ao disputar o Senado, levou consigo essa trajetória.
Para a Pública, é legítimo considerar que parte do eleitorado possa ter levado em conta também esse histórico ao decidir seu voto. Afinal, para milhões de brasileiros, serviço público não é um conceito abstrato. É o posto de saúde do bairro, a escola dos filhos, o benefício que precisa ser analisado, a segurança na rua ou o atendimento de que alguém depende justamente quando mais precisa.
Há ainda outro dado que merece atenção. A PEC 38 foi apresentada em outubro de 2025 e, quase um ano depois, continua aguardando despacho da Presidência da Câmara. Ao longo desse período, parlamentares que haviam subscrito a proposta chegaram a apresentar requerimentos para retirar suas assinaturas.
Esse resultado precisa ser observado com atenção pelos parlamentares nesta nova legislatura, especialmente por aqueles que pretendem recolocar a Reforma Administrativa no centro da agenda do Congresso.
A derrota de Pedro Paulo para o Senado não permite resumir uma eleição inteira a uma única pauta. Mas também não deve ser ignorada por quem pretende retomar a reforma como se o ambiente político continuasse exatamente o mesmo.
O parlamentar que mais se expôs na construção e na defesa dessa agenda colocou nela parte importante do seu capital político e não conseguiu chegar ao Senado.
Há um alerta aí.
A Reforma Administrativa mexe com a vida de milhões de servidores, mas seus efeitos vão muito além deles. Quando se fragiliza a estrutura que sustenta uma política pública, é a população que recebe um serviço pior. E é essa mesma população que, de tempos em tempos, volta às urnas para avaliar quem a representa.
A Pública continuará acompanhando cada movimento dessa pauta e levando à sociedade informações sobre o que está sendo proposto e quais podem ser os seus efeitos sobre os serviços públicos.
Quem decidir assumir a Reforma Administrativa como bandeira nesta nova legislatura precisa, portanto, olhar com atenção para o que aconteceu em 2026.
Pedro Paulo fez essa escolha. Tornou-se o principal rosto político da reforma.
E não chegou ao Senado.
